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Brasília, 11 de dezembro de 2019 - 19:32
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Segunda-feira, 03 de dezembro de 2001

Ministro Marco Aurélio - Formatura dos alunos do Programa de Aprimoramento Educacional dos Empregados Terceirizados do STF

Discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Marco Aurélio, na solenidade de formatura dos alunos do Programa de Aprimoramento Educacional dos Empregados Terceirizados do STF, em 3/12/2001.

Todos nós, em alguma etapa da vida, já sonhamos em nos tornar heróis por algum instante. De repente, como que por magia ou milagre, lá está nos jornais a foto de nossa fisionomia feliz ou muito cansada, mas brilhante pelo contentamento depois de um feito que parece surpreendente aos olhos do mundo, não, porém, a nós mesmos. De súbito, a voz do apresentador no Jornal Nacional: “e, assim, Carmelino e Dailton, sem temerem os riscos, num gesto de extrema coragem, salvaram tantas vidas inocentes...”; ou então: “Doralice da Conceição, havendo achado por acaso essa verdadeira fortuna, devolveu-a de imediato, mostrando mais uma vez a já conhecida boa índole e honestidade do povo brasileiro(...); ou ainda: “E tudo isso graças à habilidade e dedicação da funcionária Geny que, inteligentemente, encontrou a solução que possibilitou à empresa manter o mesmo número de empregados, embora em meio à aguda crise econômica do País ...”. Nesse sonho, nessa fantasia, todos, de supetão, veriam quão bons realmente somos; enxergariam, por assim dizer, a cor resplandecente da nossa alma, a beleza do nosso caráter. De repente, as pessoas compreenderiam o que sempre soubemos, e que às vezes passamos a vida inteira tentando demonstrar.

Pois bem, poucos têm ou tiveram a oportunidade de alcançar o reconhecimento público de seus méritos - com todo o estardalhaço da imprensa, luzes, medalhas e louvores. Entretanto, dentro desse anonimato, nos defrontamos, sim, com grandes heróis que, exatamente por serem anônimos, mostram-se mais virtuosos, mais merecedores, mais fortes, maiores. Sabem por quê? Porque é fácil ser bom e generoso sob aplausos e holofotes; difícil é ser e permanecer íntegro em meio a uma vida inteira de provações e dificuldades. O mais complicado é se manter fiel aos próprios valores, apesar de tanta adversidade. Como é simples dividir o que nos sobra! Ao contrário, com que extremo sacrifício abrimos mão do que nos falta... Mas é somente nesse instante que somos de fato generosos e bons, os melhores...

Tudo isso para lhes dizer que me sinto orgulhoso e feliz ao deparar aqui com pessoas da mais elevada estirpe, heróis cuja bravura para sempre ficou registrada nesse diploma. Este pequeno, mas simbólico pedaço de papel, é a certidão preciosa da grandeza, da determinação, da força incomparável de cada um de vocês. Não há dúvida: vocês são enormes, muito maiores do que todos os bem nascidos que não precisaram de esforço algum para obter o que há muito tempo já estava pronto lhes esperando; vocês são imensos porque nunca desistiram do sonho, apesar da dor; são os melhores porque, tendo todas as razões para se acovardar, ou para nem sequer tentar sair do escuro, jamais fugiram à luta. E depois de tantos obstáculos, conseguiram, com decisivo esforço, a chave da própria liberdade. Ninguém lhes presenteou ou favoreceu. Vocês conquistaram esse maravilhoso troféu. Gigantes que são, reverteram o curso do rio e agora têm nas mãos o leme do próprio destino. E isso lhes confere todo o mérito, todo o respeito que alguém pode querer, o que vale bem mais que os tão desejados 15 minutos de fama. Bravos, fortes, são já vencedores, ainda que a jornada que se avizinha mal tenha começado. Novos recordes, tenho certeza, serão facilmente batidos, a exemplo da trajetória admirável do Dr. Nelson Coimbra de Senna Dias que, havendo tardiamente descoberto o tesouro das letras, não demorou a dominar a seara jurídica e, num gesto de pura generosidade, resolveu colaborar com este Programa de Aprimoramento, abrindo mão de seu valioso tempo para, como instrutor, ensinar a outros bravos o caminho da fortuna, numa corrente de amor e bondade. É impossível não aplaudir de pé.

Bertolt Brecht, um grande escritor alemão, dizia que os homens que lutam um dia são bons; os que lutam por um ano, são melhores ainda; mas aqueles que lutam a vida inteira são os indispensáveis. Vocês fazem parte desse conjunto. Porque, de fato, são exemplo e inspiração, sobretudo naqueles momentos em que estamos mais desanimados e enfraquecidos. São fundamentais para mantermos a esperança de um mundo cada vez melhor. Aplaudimos de pé, sim, todos vocês, valentes guerreiros. E desejamos de coração que sejam verdadeiramente muito felizes. Que assim ocorra.



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