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Brasília, 9 de dezembro de 2019 - 16:31
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Quinta-feira, 06 de dezembro de 2001

Ministro Marco Aurélio - Entrega da medalha "Mérito do Servidor do Supremo Tribunal Federal"

Discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Marco Aurélio, na solenidade de entrega da medalha "Mérito do Servidor do Supremo Tribunal Federal", 06/12/2001.

Caros homenageados,

Em meu gabinete, conto com os bons préstimos de uma servidora muito espirituosa que, certa vez, explicava-me a sua peculiar forma de poupar, já pensando nos tempos da velhice. Bem humorada, mas mui sabiamente, dizia-me que, ao invés de depositar dólares ou reais, contabiliza diligentemente, se possível todos os dias, considerável aporte de boas lembranças. E concluía: “imagine, Ministro, eu lá na UTI, nas últimas, toda entubada, e ninguém conseguindo entender aquele meu sorrisinho pendurado no canto da boca, já que estarei me deliciando, fazendo secretamente a maior farra com as retiradas na minha fortuna de agradáveis recordações”.

Seguramente este momento será computado como um desses altos investimentos em que o lucro é certo e total, porque nada é mais alvissareiro que o justo reconhecimento, principalmente quando o aplauso não se alicerça somente num instante de bravura, num ato de heroísmo, ou em algum feito genial, espetacular, mas vem referendado pelo aval incontestável do tempo, consolidando-se no veredicto do cotidiano - e não existe, de fato, aprovação mais exigente.

A ocasião, sem sombra de dúvidas, é auspiciosa. Estamos diante dos melhores. E não se trata, aqui, de um simples afagar de egos. Muito ao contrário, desponta, como premissa desta cerimônia, a abnegação diuturna, o trabalho desinteressado de outra coisa senão o amor pelo próprio trabalho. Eis a grande diferença. Dizem que o pior tipo de empregado é aquele que, antes de começar a trabalhar, pergunta pelos seus direitos; já os bons, esses querem saber dos deveres. Os melhores, os imprescindíveis, indagam em que podem contribuir, em que podem acrescentar.

Meu júbilo agora é imenso, porquanto deparo com um time de escol, cujo mérito reside exatamente em bem servir, não a grandes capitais, não a portentosos monopólios, mas ao público, aos cidadãos brasileiros, enfim, a uma causa verdadeiramente maior, ou seja, à realização da justiça. Servimos ao povo, aos contribuintes. E os que aqui estão, tenho certeza, orgulham-se disso, apesar dos reveses salariais e de um incompreensível e contínuo desprestígio à carreira. Ninguém aqui contou, nem em sonhos, com algum reconfortante prêmio de participação nos lucros, como no mercado privado; jamais se acenou, para quem quer que seja, com um abono de produtividade ou com uma recompensa por tanta dedicação. Nada disso. Foi o prazer do trabalho que aperfeiçoou a obra, para citar Aristóteles. Estou diante de pessoas que acreditam no que fazem e por isso fazem bem feito. E não me refiro à técnica, ao conhecimento puro, ao dom extraordinário da inteligência, embora esses atributos sejam de grande importância. Tampouco me reporto a quem sabe exercer o dificílimo ofício de comandar, ainda que, ante as circunstâncias, seja conseqüência natural o fato de grande parte dos agraciados ocupar função comissionada. Ao reverso, falo da sinergia de quem ama o que faz, emanando, assim, força interior insuperável, a propalar por todo o ambiente, daí resultando a harmonia que eleva o concerto à categoria de rara obra de arte. Cuido, sim, de um conjunto de fatores - aptidão, desprendimento, envergadura moral, paciência, humildade, simpatia, boa vontade e tantos outros - que, somados, formam o mestre. Conhecemos servidores ímpares no talento de lidar com a adversidade. Há também aqueles cuja experiência é tesouro inigualável, ou que fazem da dedicação e absoluta disponibilidade instrumentos dos mais eficazes para a solução de qualquer impasse. Existem ainda os que, por um senso de responsabilidade exacerbado, esquecem-se de si mesmos, sacrificam a própria família, mas de maneira alguma esmorecem em tempos de aguda crise, em que a sobrecarga de trabalho é decididamente desumana, escorchante. Vocês, os ora condecorados, notabilizam-se por reunirem todas essas qualidades. E tudo isso sem desertar do bom humor, da urbanidade necessária à conciliação diária, da delicadeza e bondade, ou não teriam sido eleitos, pelos próprios colegas, como os melhores, em votação secreta e, portanto, isenta de toda sorte de mesquinhas pressões. Estou diante, isto sim, de pessoas generosas por natureza e convicção, e o que a Corte ora formaliza, eternizando-a, é a gratidão por essa magnanimidade.

Ao despedir-me, permitam-me fazer uma homenagem a um servidor que, há dez anos, chegou ao meu gabinete como Atendente de Plenário. Era um rapaz tímido, reverente, atencioso e discretíssimo. Sem alarde, graduou-se em Administração de Empresas e, mais tarde, enveredou-se nos íngremes estudos da seara jurídica. Extremamente dedicado, movido por um sincero desejo de aprender e ajudar - o que faz, repito, toda a diferença -, aos poucos foi galgando postos e responsabilidades, até chegar à regência administrativa do meu gabinete, agora integrando a minha assessoria. No ano passado, por avassaladora maioria, foi escolhido para ser agraciado com a comenda que hoje novamente lhe abrilhantará o peito. Confesso estar orgulhoso por condecorá-lo pela segunda vez. Vejo-o como exemplo de força de vontade e retidão de caráter, e o seu prêmio é, para mim, muito compensador, porque só confirma a lei do merecimento, a respaldar a todos, sobretudo nos momentos de maior desânimo. Pois bem, na pessoa desse meu diligente servidor, Guaraci de Sousa Vieira, é com a maior satisfação que me congratulo com os servidores da Casa que, com exemplo de tal vulto, honram-na e, dia após dia, sobremaneira a engrandecem. Muito obrigado.



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