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Brasília, 11 de dezembro de 2019 - 06:46
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Quinta-feira, 13 de dezembro de 2001

Ministro Marco Aurélio - Confraternização natalina dos servidores e colaboradores do STF

Discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Marco Aurélio, na Festa de Confraternização Natalina dos servidores e colaboradores da Corte, em 13/12/2001.

Há algum tempo, a televisão brasileira veiculou um anúncio publicitário cujo mote era o desejo de que as coisas boas da vida se repetissem pelo menos três vezes durante o ano, de sorte que, ao invés de uma, teríamos três festas de aniversário, contaríamos com três períodos de férias, três carnavais e assim por diante. Cá com os meus botões, fico a imaginar como seria prodigioso se o espírito natalino pudesse assenhorar-se das pessoas mais vezes por ano; se, por exemplo, a cada término de mês fizéssemos esse acerto de contas pessoal tão característico dos finais de ano, de modo a verificarmos em que contribuímos efetivamente, não só para o nosso crescimento individual, mas também para o familiar, o profissional, o comunitário. Aliás, bem mais proveitoso seria se resolvêssemos proceder a um balanço semanal sobre essas ações assertivas que, para alguns, parecerão extravagantes, mas que, muito ao contrário, revelam-se inerentes ao propósito de quem optou pelo caminho mais árduo do bem, pela trajetória mais exigente da ética, pelo caminho nada fácil da coerência e fidelidade aos valores por si eleitos.

Tenho amigos que cultivam o louvável e salutar hábito de, ao se recolherem, fazerem uma pequena reflexão sobre o dia. Infelizmente, essa não é a regra, já que muito menos de um por cento das pessoas pensa na própria existência ou sabe discernir o que pretende para si ao longo do tempo. Todavia não é difícil imaginar o quão maravilhoso seria se aqueles que têm consciência sobre a transitoriedade da vida decidissem passar da teoria à prática e diariamente contabilizassem, além de meditações, atitudes em prol de outrem. Por certo haveríamos de nos defrontar com realidade menos cruel se abandonássemos o medo e nos envolvêssemos com a dor alheia para amenizá-la. E não só nos finais de ano. Porque a fome não espera por um ano para se manifestar, muito menos a sede de justiça, ante o tratamento indigno dispensado a muitos milhões de necessitados em todos os continentes. E nem é preciso atravessar os sete mares. Ficássemos só com os próximos mais próximos e já seria bastante! Também é claro que não se está a cuidar, aqui, de rasgados atos heróicos que impliquem renúncia radical aos prazeres do cotidiano de cada um. Ao reverso, são pequenas atitudes - imensas, entretanto, em intenção e ainda mais em resultados - , como estas de distribuição de cestas básicas, que fazem a diferença. Tenho certeza de que não nos custou muito e estou mais convencido ainda da felicidade que trará esse gesto não só às muitas famílias que de bom grado aceitarão essas cestas, mas sobretudo a quem as ofereceu, visto que, ao ofertarem alimentos por pura generosidade, nutriram a própria alma, pelo efeito mágico do amor. De fato, a bondade é um exercício que não será recompensado apenas com o galardão do reino dos céus. Antes, a satisfação em sermos bons, aperfeiçoando-nos, só nos tornará, dia após dia, mais completos, mais dignos, mais elevados.

Alguns estarão talvez a retrucar, num muxoxo mais pessimista e descrente, que isso não passa de sonhos, de meras palavras sobre o óbvio. A minha esperança, no entanto - otimista que sou por natureza e convicção -, é de que o óbvio seja finalmente visto e entendido por todos. Só então o natal - cujo verdadeiro significado diz com o renascimento - terá lugar todos os dias, ocupando todos os espaços, até que a caridade transmude a dor alheia em nosso próprio desconforto, eliminando o pernicioso mal da indiferença, até que o próximo mais próximo - ou mais distante, não importa - seja, de fato, nós mesmos.

Desejo-lhes um natal pleno de paz e harmonia. Que o ano de 2002 seja repleto dessas ações positivas, de modo a sermos todos mais felizes.



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