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Brasília, 12 de dezembro de 2019 - 03:56
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Quinta-feira, 29 de maio de 2003

Discurso do ministro Marco Aurélio por ocasião do recebimento do título de “Cidadão de Brasília” - 28/5/03

 

 

Senhores, 

 

Permitam que eu manifeste os meus mais sinceros e efusivos agradecimentos pela elevada honra de ser agraciado com o título de Cidadão de Brasília.

 

A ocasião, para mim, é das mais significativas, porquanto vejo agora consagrada, oficialmente, uma relação de afeto deveras antiga e bastante duradoura, predicados que, ao contrário do que normalmente se verifica, nunca lhe arrefeceram a especialidade, muito menos a ternura e a devoção devidas.

 

Mais de vinte anos são passados desde o dia em que aqui desembarquei, trazendo na bagagem a vontade impetuosa de construir um futuro voltado à causa pública. E Brasília me acolheu de coração aberto logo no primeiro instante, num abraço apertado que até hoje me aquece. Ao chegar, olhos de espanto e de encantamento diante de um céu imenso e descortinado, entendi de pronto que este seria o local em que faria dos meus filhos pessoas de bem, comprometidas com os destinos do Brasil, pois que, sem dúvida alguma, o primeiro e mais marcante viés da cidade é a perene e decisiva lição de cidadania, a se materializar diuturnamente em cada quadra, perto ou longe da magnífica Esplanada dos Ministérios. E, nesse mister, Brasília consolida-se como espelho para o restante do País.

 

Centro nevrálgico do Poder, aqui se traçam as diretrizes vitais para o bem-estar do nosso povo; coração pulsante da enorme nação brasileira, daqui emanam os exemplos que hão de nortear a conduta de todos – dos mais simples aos mais empertigados. E não me refiro só à seara política. Brasília é mais que uma tribuna, de vez que encarna a própria representação do que a vontade humana sucede conseguir. O sonho de Juscelino Kubitschek concretizou-se para o mundo como uma prova irrefutável da notória competência dos brasileiros em edificar um país admirável, promissor e feliz. Brasília é a metáfora perfeita para o Brasil empreendedor que reconhecemos ser o verdadeiro. Partimos do nada, em condições absolutamente adversas, e, em pouco tempo, como sói ocorrer, surpreendemos o Planeta. À época, ironizaram as nossas pretensões, tal como se deu no momento em que levantada a discussão sobre a nossa habilidade para buscarmos, nós mesmos, os meios para suprirmo-nos do petróleo, aço e energia necessários ao crescimento que sempre merecemos. Um a um, vamos vencendo os obstáculos. Nunca foi fácil, nem será. Brasília personifica essa maravilhosa capacidade de superação. Precisamos pensar nisso quando, mitigando nossa auto-estima, quiserem nos fazer acreditar que determinado projeto não passa de mera e risível utopia, que jamais alcançaremos o auspicioso papel a nós reservado pela história.

 

Brasília, entretanto, não se traduz só em concreto. Modelo de cidade moderna, de uma beleza plástica incontestável e ainda hoje, transcorridos mais de quarenta anos, símbolo do arrojo de um povo criativo, de uma gente cordial e inteligente, mesmo assim não se esvaiu o quinhão místico  que emoldurou o lugar desde o começo. Essa amplidão de espaços, a inspirar paz e liberdade, como que chama para uma outra expansão, além daquela proporcionada pelas oportunidades que naturalmente se apresentam aos notáveis talentos. Brasília, mágica, urbana, convida, a um só tempo, ao crescimento interior, espiritual e, por conseqüência, ao respeito pelo próximo, à tolerância pelas idéias e modo de viver dos outros, atitude que, no sábio entender de Norberto Bobbio, vem a ser a própria expressão da serenidade. Neste ponto, numa síntese talvez apressada, mas nem por isso menos verídica, ousaria afirmar que Brasília se me revela como a própria configuração da serenidade.

 

Ao despedir-me desta Casa, reiterando as minhas mais comovidas palavras de gratidão, gostaria de sublinhar o privilégio de haver sido calorosamente recebido por esta belíssima Cidade-Monumento que a tantos continua seduzindo, exatamente como aconteceu comigo. Sempre digo que sou um homem afortunado, porque faço o que aprecio num lugar que amo. Há pessoas que escolhem o mundo como pátria, mas estou entre aqueles que não saberiam ter outra nacionalidade que não a brasileira. E, suprema ventura, eis-me agora distinguido pela honra de ver confirmado solenemente o exercício pleno dessa apaixonada cidadania, aquinhoado que fui por tão prestigioso título. Celebro-o como um noivo enamorado diante da certidão de casamento: um final feliz para um grande amor.

 

Muito obrigado a todos!

 

 



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