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Segunda-feira, 22 de abril de 2013

Últimas exposições na audiência pública sobre queimadas em canaviais destacam impacto ambiental e institucional

Os últimos expositores da audiência pública realizada nesta segunda-feira (22), no Supremo Tribunal Federal (STF), apresentaram aspectos diferentes do problema da queimada da palha da cana-de-açúcar: o ambiental, o institucional e o dos trabalhadores.

Impacto ambiental

Paulo Henrique Corrêa, vereador de Barretos (SP), destacou em sua apresentação os malefícios que as queimadas causam à sociedade. “Barretos tem 125 mil hectares, dos quais 70% são plantação de cana, mas não tem uma usina”, afirmou. Segundo ele, há 20 anos o município tinha praticamente 10% de sua população na zona rural, e hoje são apenas 3,5%. “A cana expulsou o trabalhador da zona rural”, observou.

Corrêa apresentou reportagens de TV que mostram “a realidade de uma queimada de cana”: a mortandade de animais queimados no interior dos canaviais (tatus, tamanduás, onças, ouriços, etc.) e a queda acentuada da qualidade do ar nas regiões onde a prática é adotada. Em Bariri (SP), na época das queimadas (de maio a novembro), a qualidade do ar é quatro vezes pior do que na capital do estado, com alta incidência de doenças respiratórias.

Para o político, é preciso discutir também os efeitos do procedimento na sociedade, e não apenas para o trabalhador. “Temos que respeitar o trabalhador, mas os malefícios afetam toda a população”, afirmou.

Busca do equilíbrio

Hélio Gurgel, falando em nome da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente (Abema), lembrou que os operadores ambientais (secretarias e órgãos de controle e fiscalização) são os responsáveis pela política “na ponta, no campo”, onde verificam o cumprimento das normas. Também para ele, não se trata apenas de uma questão política e econômica, mas social e ambiental.

“As queimadas são práticas seculares, trazidas para o Brasil por Duarte Coelho, no Nordeste”, observou. Coelho foi o primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, no século XVI, pouco depois do descobrimento do Brasil.

Gurgel ponderou que, por um lado, a prática resulta em poluição atmosférica, perigo à fauna e danos à saúde humana. Por outro, a mecanização, além dos altos custos, traz o risco de compactação e erosão do solo e de desemprego. E, segundo afirmou, pesquisadores indicam que há uma “equivalência suportável” entre o gás carbônico liberado nas queimadas e o fixado pelos vegetais.

Dentro dessa dicotomia, ele acredita que é necessário encontrar o equilíbrio. “Não vemos outro caminho a não ser chegarmos a uma proposta de equação e articulação política, dentro de uma base legal que dê um teto para que se possa ter um marco regulatório e alcançar sustentabilidade a contento dentro da expectativa da sociedade”, concluiu.

Impacto nos trabalhadores

A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) dividiu seu tempo entre dois expositores. Carlos Eduardo Chaves Silva reiterou os dados apresentados em exposições anteriores sobre o perfil do trabalhador rural para manifestar sua preocupação com a falta de políticas específicas para essa categoria, com baixa escolaridade, alto nível de analfabetismo e falta de qualificação. “Isso é um obstáculo sério, pois esse trabalhador, ao ser substituído pelas máquinas, vai precisar disputar vagas na sociedade”, afirmou.

Silva disse que a mecanização antecede a questão ambiental, como estratégia de mercado para a redução do custo com mão de obra. Segundo ele, as medidas governamentais e empresariais para diminuir o impacto ambiental “são louváveis”, mas a mecanização acelera e descontrola o processo. “Pensou-se em tudo, menos na proteção ao trabalhador”, afirmou, assinalando o desaparecimento acelerado de milhares de postos de trabalho sem a criação de alternativas viáveis para absorção da mão de obra liberada no processo.

Para ele, a recolocação de trabalhadores é viável, desde que haja um processo estruturado de alfabetização e requalificação. “A Contag vem cobrando isso, propondo um prazo de transição, para que a mecanização seja gradual, porque o impacto para os trabalhadores é muito grave”.

O outro representante da Contag, Antônio Lucas Filho, que trabalhou durante dez anos como cortador de cana, lamentou o fato de que as discussões para resolver questões econômicas não chamem os trabalhadores à mesa para conversar. “Felizmente o STF nos chamou”, afirmou.

Lucas disse que não é a favor da manutenção da queima “para a vida inteira”. “Um dia vamos eliminá-la, mas o trabalhador não pode ser dispensado de um dia para o outro. Vamos ser punidos por isso?”, questionou. Ele defende um período de transição para que a mudança não seja uma punição para os trabalhadores rurais, que precisam ser formados, educados e capacitados para ocupar postos de trabalho que devem surgir, inclusive, no setor mecanizado.

CF/AD
 



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