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Quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Especialista diz que anencefalia pode ser diagnosticada com 100% de segurança

O médico Everton Neves Pettersen, da Sociedade Brasileira de Medicina Fetal, disse nesta quinta-feira (28) que existe, hoje, capacidade técnica para diagnosticar a anencefalia com 100% de segurança, já no primeiro trimestre de gestação, mais precisamente a partir da 8ª semana.

Ele observou que essa segurança técnica foi alcançada nos anos de 1995-1996,  com o advento da ultra-sonografia em três dimensões (3D) e com a padronização de normas sobre o assunto. “Basta termos a imagem do feto, um corte  transverso no pólo cefálico, e teremos a imagem ultra-sonográfica bem clássica da formação correta do desenvolvimento do sistema nervoso central”, afirmou.

“Se temos  dúvida, podemos usar de alta tecnologia dentro da ciência, como a ressonância magnética”, afirmou. “Podemos mostrar claramente o desenvolvimento do feto, o desenvolvimento de toda a calota craniana e do encéfalo deste feto, e podemos ver a total ausência da formação do encéfalo e da formação da calota craniana”.

“E, se ainda não  estamos satisfeitos, podemos usar a ressonância com reconstrução em 3D”, prosseguiu. “Com subtração da imagem, podemos ver claramente a formação de todo o encéfalo. Então, temos recursos para o diagnóstico de certeza da anencefalia. Mas temos que ter cuidados na interpretação da imagem”.

O médico dividiu em duas partes a sua exposição, na audiência pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para debater a antecipação de parto do feto encefálico – em exame no Tribunal, na Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54 -. Inicialmente, abordou a formação do embrião e do cérebro e, em seguida, a questão do diagnóstico da anencefalia.

Embriologia

Everton Neves Pettersen explicou que o cérebro, a coluna e o canal medular são derivados do tubo neural, que faz parte da formação do sistema nervoso central, e se formam precocemente, durante a vida embrionária, por volta do 12º ao 42º dia após a fecundação. Portanto, a partir de então, o feto já terá o sistema nervoso central formado.

Na ultra-sonografia esse embrião mede aproximadamente 1 a 2 milímetros. Nesse estágio, segundo o médico, ainda seria impossível fazer a investigação da anencefalia. Mas, segundo ele, já por volta da 8ª semana de gestação, é possível diagnosticar a anencefalia, desde que se tenha um completo conhecimento da embriologia e, obviamente, um bom aparelho de ultra-som.

“Como conhecemos o encéfalo, ele é formado pelos hemisférios cerebrais, pelo cerebelo e pelo tronco cerebral”, observou. “Então, o termo anencefalia é fácil de entender. Seria, então, a não-formação completa do encéfalo. Ou seja, para o  diagnóstico de anencefalia, precisamos ter ausência dos hemisférios cerebrais, do cerebelo e um tronco cerebral rudimentar”.

“É claro que, durante esta formação, não tendo (o embrião) a cobertura da calota craniana, também vai fazer parte do diagnóstico a ausência parcial ou total do crânio”, prosseguiu. “É o defeito do tubo neural mais freqüente”.

Ele informou que a incidência da anencefalia na população mundial situa-se na faixa de um (01) a cada mil (1.000) nascimentos, mas que, em São Paulo, estre número tem sido um pouco superior, de 100 casos em 600 mil.

Ele admitiu que a medicina ainda não conseguiu definir exatamente as causas da anencefalia, mas pode entender duas  formas de anencefalia. “Uma delas ocorreria por uma falta de migração do tecido neuronal para sua posição adequada ao correto desenvolvimento. Então, precocemente, já não teremos a formação de nenhuma das vesículas”.

O outro defeito é a falta de fechamento (do crânio), ou seja: houve a migração do tecido neuronal, mas não houve a sua proteção formada pelo crânio. Dessa forma,  o tecido cerebral ficaria exposto ao líquido amniótico e, como sabemos, o tecido cerebral é extremamente frágil e, com uma seqüência da evolução, ele teria a sua degeneração ao longo da gestação”.

Compreensão do diagnósgtico

O médico recordou que, na década de 70, os equipamentos de ultra-som não ofereciam segurança para o diagnóstico da anencefalia. Já na década de 80, com a evolução da ultra-sonografia, com os aparelhos de alta definição, era possível fazer o diagnóstico clássico da patologia no segundo trimestre de gestação. A imagem que se obtinha era a assemelhada a um Mickey ou de cara de sapo, por causa da falta da calota craniana,com projeção dos globos oculares. 

Recentemente, porém, com a reconstrução das imagens em três dimensões (3 D) em tempo real, passou-se a ter uma imagem bastante fidedigna, segundo ele. Graças a essa aparelhagem, observou, a reconstrução é fácil de ser entendida pela pessoa mais leiga. Por outro lado, a medicina especializada foi aprendendo a respeito da evolução dos casos e da embriologia.

“No primeiro trimestre de gestação, nós precisamos tomar cuidado porque, se for do segundo tipo de malformação – aquela que não forma o crânio, inicialmente, para proteção - , nós podemos ter a falsa idéia de que o feto está completamente  formado no primeiro trimestre de gestação”, observou Everton Pettersen.

Caso Marcela de Jesus

O médico disse que o caso de Marcela de Jesus, amplamente noticiado na imprensa, que seria um caso de anencefalia com longa sobrevida, é um “caso clássico de falsa idéia de anencéfalo”. À base da imagem tomada em uma tomografia, ele mostrou que Marcela apresenta região do cerebelo, tronco cerebral  e um pedacinho do lóbulo temporal, que faz parte dos hemisférios cerebrais. “Então, isso não é diagnóstico de anencefalia”, afirmou.

Segundo Everton Petersen, no entanto, essa confusão é compreensível, porque a imagem é semelhante à de um anencéfalo, pois também apresenta aspecto de sapo com olhos exuberantes. “São bastante parecidos, mas são diversos  em termos de patologia”, afirmou. Ele disse que tais erros de diagnóstico são compreensíveis por se tratar de uma patologia rara e a classe médica ter pouco acesso a casos semelhantes.

No fim de sua exposição, o médico Everton Pettersen defendeu a realização da antecipação de partos em casos de anencefalia. “Nós consideramos o feto anencéfalo um natimorto neurológico”, observou. “Porque, do ponto de vista técnico, ele não tem sequer o desenvolvimento do sistema nervoso central. Por isso, disse, “seria uma tortura psicológica” obrigar a mãe levar até o fim a gestação de um feto que nascerá morto.

FK/LF



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